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Quando o Corpo Diz Basta - A Quarta FIV

  • Foto do escritor: Mariella Matos
    Mariella Matos
  • 31 de jan.
  • 3 min de leitura
Mulher sentada na cama, em ambiente iluminado pela luz natural, demonstrando reflexão e cansaço emocional após tratamento de fertilidade.

Depois da terceira FIV — aquela que sequer chegou a fertilizar — algo dentro de mim começou a mudar.


Não foi revolta.

Não foi desistência.

Foi um cansaço profundo, silencioso, que já não cabia mais em esperança.


Decidi trocar de médica.


Não por falta de competência técnica ou cuidado, mas porque a frustração da terceira tentativa tinha deixado marcas demais.


Além disso, a clínica era extremamente concorrida: horas de espera, consultas rápidas, sensação constante de estar sempre correndo contra o tempo.


E eu já estava cansada de correr.


Uma blogueira havia acabado de relatar sua gravidez de gêmeos, fruto de um tratamento com outra médica.


Falava com gratidão, entusiasmo, esperança.

Aquilo acendeu em mim um último fio de luz.

Marquei a consulta.


O consultório era impecável.

Nada de atrasos, nada de correria.


Na primeira conversa, levei comigo três pastas de exames — anos de tentativas, hormônios, expectativas.

A médica folheou tudo em silêncio.

Não fez comentários longos.


Apenas perguntou:


— Quando você quer começar?


Eu tinha quase 42 anos.

Sentia urgência.

Mas, ao mesmo tempo, estava exausta.

Queria tentar logo — como quem sente que não pode mais esperar.


Alguns dias depois, ela me chamou novamente.


Disse que teria um congresso internacional e que, se eu quisesse iniciar o ciclo imediatamente, a coleta seria feita por uma colega especialista, extremamente capacitada.

Garantiu que eu estaria em boas mãos.

Com tanta segurança, decidi seguir.


Era abril de 2017.Eu já conhecia cada etapa, cada agulha, cada efeito colateral.

Nada era novidade.

Ou assim eu achava.


O protocolo foi iniciado sem grandes mudanças.

Nenhuma abordagem diferente.

Nenhuma nova estratégia.

A coleta foi marcada para um domingo — Dia das Mães.


Cheguei à clínica onde já estivera tantas vezes.

Tudo me era familiar.

Três coletas anteriores, todas tranquilas.

Sempre saía em poucas horas, sem dor, sem sangramento, com esperança no peito.


Mas aquela foi diferente.


Muito diferente.


A dor veio forte.


Fui medicada sem saber exatamente o que estava recebendo.

Tentava me levantar e a pressão caía.

Voltava para a sala.


Tentava de novo.

E de novo.


Fiquei quase cinco horas na clínica.

Sem conseguir ir embora.

Sem almoçar.

No Dia das Mães.


Ao meu lado, meus dois pilares: minha mãe e meu marido.

O resto… era silêncio.


Saí de lá com dor intensa e sangramento — algo que nunca havia acontecido antes.

A médica foi embora antes de mim.

Não recebi uma única ligação da clínica nos dias seguintes para saber como eu estava.


Apenas as ligações do laboratório.


Três embriões haviam fertilizado.


Por um breve momento, respirei.

Mas, no terceiro dia, mais uma vez, eles pararam de se desenvolver.


Meu chão se abriu.


Depois do silêncio, liguei para a clínica.

Eu ainda sentia dores.

Queria entender o que tinha acontecido.

Queria orientação.


A médica, já de volta da viagem, me recebeu fria.

Relatei as dores.

Ela respondeu, sem muita atenção:


— Isso acontece. Sangramentos são normais.


Eu nunca havia sangrado antes.

Mas engoli a resposta.


Perguntei, então, sobre os próximos passos.


E ouvi, sem rodeios:


— É impossível você engravidar.(Pausa)


Quer dizer… impossível não é, porque para Deus nada é impossível.


Mas será muito difícil.

Você teria que fazer umas seis coletas até o final do ano.

Talvez assim consigamos algum óvulo viável.


Ali, algo em mim quebrou.


Eu já havia passado por quatro FIVs.

Estava emocionalmente exausta.

Quinze quilos acima do meu peso.

Financeiramente desgastada.

Tinha entrado na Justiça para que o plano cobrisse o tratamento — consegui a liminar, e depois a perdi.


Naquela semana, meu marido estava viajando.

Ouvi tudo sozinha.


Saí da consulta sem chão.

Atordoada.

Sem saber para onde ir.


Cheguei em casa e chorei.

Chorei na sala.

Chorei no quarto.

Chorei no banho.


Deixei a dor vir inteira.


No terceiro dia, algo mudou.


Acordei e pensei:

Se para Deus nada é impossível, então eu me entrego.

Que seja feita a Sua vontade — como eu sempre pedi.

E, se for preciso um milagre para uma FIV, então que seja da forma que tiver que ser.


Naquele momento, algo em mim se aquietou.


Pela primeira vez em anos, senti paz.

Uma paz estranha, silenciosa, mas real.


E comecei, ainda sem saber, a imaginar uma vida diferente.

Uma vida sem filhos.

Apenas eu e ele.

Outro caminho.

Outro sentido.


E foi ali que algo terminou — para que outra coisa, ainda invisível, pudesse começar.


“Antes da aceitação, existe um cansaço mudo — aquele que ensina a soltar o que já não pode ser carregado.”


Com carinho,


Mariella 💛

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